quarta-feira, 26 de julho de 2017

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Haruki Murakami

 
De julho do segundo ano da faculdade até janeiro do ano seguinte, Tsukuru Tazaki viveu pensando praticamente só em morrer. Nesse meio-tempo ele completou vinte anos, mas o marco não significou nada em especial para ele. Naquela época, acabar com a própria vida lhe parecia a coisa mais natural e lógica a ser feita. Até hoje ele não sabe bem por que não deu o passo derradeiro. Afinal, naquele momento, atravessar a soleira que separa a vida e a morte era mais fácil do que engolir um ovo cru.
Ah, Murakami... Ainda me lembro do período em que namorei avidamente seus livros, pensando que você poderia ser meu novo autor favorito. Comprei Norwegian Wood, com o preço cheio na internet — o que eu achava um ultraje — só porque a edição parecia esgotada em quase todos os lugares. Alguns meses depois, é claro, vi o livro nos estandes das livrarias novamente. Mas eu não me arrependi da compra. Li logo o romance e adorei. Me lembro de terminá-lo de madrugada, quando minha família já estava dormindo. Eu devorei Norwegian Wood. Como eu tinha pesquisado bem os outros livros do autor, sabia que eles não eram tão parecidos com o que eu lera: tinham talvez o mesmo tom melancólico, mas também os tais elementos fantásticos tão típicos da sua obra.

Então eu li Após o anoitecer e não gostei muito. Quando peguei o assunto dessa resenha (finalmente!) para ler, portanto, minhas expectativas já estavam menores — mas bem confusas, porque O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação fez um sucesso grande para um livro do Murakami, e vi várias opiniões diferentes sobre ele.

Tsukuru é um protagonista meio padrão do autor: um homem solitário e melancólico que se sente fora do lugar. O motivo por trás de toda essa tristeza é a exclusão que ele sofreu por seus amigos da juventude, um quarteto formado por Azul, Vermelho, Branca e Preta. Tsukuru já se sentia deslocado por não ter um nome de cor, mas quando eles param de falar com ele sem nem explicar o motivo, nosso pobre protagonista fica traumatizado. É com a ajuda de Sara, uma potencial namorada, que Tsukuru tenta entender melhor o passado e tudo o que aconteceu.

O enredo em si é interessante. Fiquei curiosa para entender o motivo por trás da exclusão de Tsukuru e todos os pedaços que vão se encaixando aos poucos na narrativa. Mas eu me senti indiferente a quase tudo durante a leitura. A amizade do grupo é mais contada que mostrada, então não dá para entender toda a questão de Tsukuru com eles, e esse é o assunto principal da história.

Basicamente, meu maior problema com o livro é que eu não entendo o que ele quer dizer com a história e se ele está apoiando o protagonista ou não. Não que a mensagem tenha que ser explícita, mas eu não faço a menor ideia do que havia na cabeça do Murakami ao escrever esse romance.

A descrição das personagens femininas, por exemplo, é de um viés de objetificação, e eu não sei o quanto isso é consciente ou não, mas incomoda ler sobre como Tsukuru sentia os peitos da amiga ao abraçá-la, por exemplo. É um narrador obviamente masculino e atualmente isso me incomoda se não há nenhum tom de sátira ou alguma indicação de que o romance considera o personagem babaca.

Gostei bastante do início do livro, quando a gente é apresentado ao Tsukuru suicida e vamos entendendo os motivos aos poucos. Também achei interessante a amizade dele com Haida, meu personagem favorito, embora ela não ofereça muitas respostas. Seria errado esperar explicações de um livro do Murakami?

No geral, é uma leitura interessante, mas naquele sentido de "interessante" de quando a gente não quer falar mal. Não sei identificar o motivo exato da minha estranheza com o livro — podem existir questões de traduções também, visto que a sintaxe japonesa é muito diferente da nossa. Acho que o que mais incomoda, no fundo, é não saber o quanto dessa estranheza é proposital, ou se na verdade existe todo um outro jeito de ler ao qual eu não fui ensinada.

Avaliação final: 2,5/5

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